16/06/2012

Um adeus à Escócia

Sempre detestei dizer adeus. Mas também quem gosta?! Dizer adeus é daquelas coisas que parte o coração aos bocadinhos. Primeiro quando percebemos que o adeus está a chegar. Depois quando o adeus está mesmo quase a chegar. Quando o adeus chega o coração atinge o seu pico de despedaço. Mas depois despedaça-se mais um pouco quando já partimos e sabemos que o que tinha de ser já foi.

O limbo de contar os dias até ao adeus é, na minha opinião, o que mais dói. E se não estiver a aproveitar bem?! Não quero vir depois a ficar irritada com este ou aquele momento em que não fiz mas devia ter feito. Esse limbo é terrível. É como que uma facada invisível que só toca e magoa. Nem corta, nem rasga. Simplesmente se sente o bico pontiagudo a roçar a pele e a querer rasgar a epiderme. Esse limbo de 'quase dor'.

Sempre chorei muito em todos os adeus'es que tive de dizer. Bem na verdade sempre chorei muito e ponto final. Mas lembro-me de ter de me despedir ano após ano da família em Monte Gordo e ser sempre uma choradeira pegada. Depois de um ano sem os ver, aqueles 15 diazinhos traziam sempre um calor tão grande ao meu coração e à minha vida. Era difícil não querer aquilo por mais tempo.

Acho, no entanto, que será agora a primeira vez que terei de dizer adeus a pessoas que dificilmente encontrarei de novo. E isso dói. Custa e dói. Mas dói muito. Muito mesmo. É uma saudade que cresce ainda antes de se ter partido, porque já se sabe que o melhor já passou. Já se sabe que os momentos a recordar já passaram, não é agora em meia dúzia de dias que se fará história de novo. Já se sabe. Já se sabia mas agora sabe-se mesmo. Sabe-se que está no fim.

Estes dias escoceses estão a chegar ao fim. Este frio que me gela os ossos pela manhã, a chuva horizontal que queima os lábios segundo a segundo, o autocarro demasiado frio ou demasiado quente, as crianças, a família, o escritório, os amigos, o passeio, o castelo, a praia que só serve para ver da janela. Está tudo a dar as últimas. É bom que mantenha os olhos bem abertos nestes próximos dias para apreciar tudo até ao ínfimo pormenor. Para apreciar e comer todos os sabores.

A Escócia só me deu presentes. E por mais frio que aqui se faça sentir dia após dia, este país só me aqueceu o coração. E foi aqui que cresci como pessoa mais do que tinha crescido na Bélgica, na Irlanda, em Espanha... Aqui aprendi a ser-me. Aprendi a olhar o mundo da maneira que sempre quis olhar. Atingi um patamar de felicidade que não sabia sequer que existia. Uma paz interior que quero que caminhe comigo para o resto da vida. Não foi por estar na Escócia que tudo isto aconteceu. Foi, na verdade, porque assim teve de ser. Porque assim decidi que teria de ser. Mas é um peso enorme saber que a pessoa que entrou no avião no Aeroporto da Portela em Lisboa dia 13 de Janeiro não é a mesma pessoa que mora em mim. É um peso que me deixa na obrigação de agradecer a cada pessoa, a cada lugar, a cada momento.


Percebi que tenho um coração gigante porque, agora, vejo a quantidade de pessoas que cabem nele. Para sempre.

1 comentário:

Rute Correia disse...

Tenho saudades tuas de cada vez que te leio. *